Recados para uma avó que vai ficar com os netos alguns dias em agosto

• A Matilde não come
arroz. Diz que fica enjoada. Ainda não percebemos bem de onde vem isso,
pensámos que fosse do glúten, mas ela só come arroz sem glúten. Aliás, ela não
come glúten. A nutricionista naturopata recomendou. Também não come ovos de
aviário.

04/08/2017

Paulo
Farinha

Jornalista

MAIS
DO AUTOR

• Deixei um saco com comida para os miúdos. Arroz sem glúten, massa sem
glúten, bolachas sem açúcar, alfarroba desidratada e biscoitos de aveia e
quinoa dos Andes.
• Não lhes dê bolos de pastelaria. Nem sumos de pacote. Nem leite de vaca. Nem
chocolates. Nem leite com chocolate.
• Eles não comem nada que tenha açúcar refinado. Eu sei que a mãe faz um bolo
de cenoura ótimo, mas se fizer use apenas açúcar amarelo. Mas só metade da
dose. E cenoura biológica.
• Deixei também açúcar amarelo. É especial, extraído de cana-de-açúcar
explorada de forma sustentável.
• Se eles insistirem muito para comer doces, dê-lhes uma peça de fruta
biológica. Ou um abraço.
• O Pedro pode brincar com o iPad dele antes de ir para a cama. Mas não nos
últimos 34 minutos antes de apagar a luz. É o que dizem os estudos mais
recentes.
• Se ele ensaiar uma fita por causa disso, não o contrarie de mais. Não lhe
tire o iPad das mãos à força. Dialogue com ele. Convença-o. Queremos que os
miúdos tenham capacidade de argumentação e não queremos contrariá-los de mais,
para não serem castrados na construção da sua personalidade. No fim, dê-lhe um
abraço.
• O iPad é a única coisa eletrónica que o Pedro tem. O psicólogo dele dizia que
não devia haver tecnologia nenhuma até aos 12 anos. Mudámos de psicólogo e o
outro diz que pode haver, desde que tenha jogos que estimulem a parte do
cérebro onde se constroem as emoções. Como ficámos baralhados, arranjámos um
terceiro psicólogo, que disse para fazermos o que quisermos.
• Eles têm uma série de brinquedos de madeira e metal, feitos por artesãos
velhinhos. Às vezes queixam-se que as rodas de lata não andam. Se for o caso,
ajude-os a brincar com outra coisa qualquer, desde que não tenha plástico. Não
queremos brinquedos de plástico.
• Se forem à feira e eles quiserem comprar bugigangas nos vendedores,
compre-lhes uma rifa. Ou uma maçã. Ou dê-lhes um abraço.
• Todos os brinquedos devem ser partilhados. Não há brinquedo de menina e
brinquedo de menino. Se o João quiser brincar com as bonecas de linho biológico
da irmã, não há problema.
• Se ele quiser vestir as saias dela, também não há problema. Não queremos
limitar a identidade de género dos nossos filhos.
• Há um saco com sabonete natural e champô à base de plantas medicinais sem
aditivos químicos. Cheira um pouco mal, mas é ótimo para o cabelo.
• Mandei também umas toalhas de algodão biológico. Use só essas quando forem
para a praia. São as melhores para o pH da pele deles.
• Todas as noites eles devem ouvir um pouco de música. Não pode ser o
Despacito. O ideal é ser aquele CD de monges tibetanos. Aqueles sons são bons
para o cérebro e para a digestão.
• Se eles quiserem subir às árvores, podem subir. Mas devem dar um abraço ao
tronco antes disso. De preferência, devem agradecer à árvore antes de subirem
para cima dela.
• Eles precisam de três abraços por dia. Pelo menos. Por favor não esqueça
isso. E se puder, dê-lhes abraços de pele a tocar na pele. A energia positiva
assim passa de forma mais eficaz.

PS 1: Mãe, não se enerve depois de ler isto tudo.
PS2: Cole este papel na porta do frigorífico, para não se esquecer de nada. Mas
não use fita-cola, que isso tem plástico.

(Notícias Magazine. JN 30.7.2017)

 

Resposta da avó que ficou com os netos alguns dias nas férias (27.8.17)

«Querias
que lhes desse três abraços por dia. Nuns dias dei mais, noutros não dei
nenhum. E houve um em que me apeteceu dar um tabefe à Matilde, porque estava a
fazer uma fita, mas depois acalmou.»

29/08/2017

Paulo Farinha

Jornalista

MAIS DO AUTOR

• Olha, filha, não sei se percebi bem os recados que me
deixaste. Dizias que a Matilde não come arroz, mas houve um dia em que ela quis
provar do arroz de frango que fiz para mim e para o teu pai e gostou. E pediu
para repetir. Duas vezes. Já não me lembro se vocês são vegetarianos ou não, se
os miúdos comem carne às vezes ou só às terças e quintas, mas ela pareceu tão
consolada que no dia seguinte fiz mais. E também gostou do sarrabulho.

• Não lhes dei bolos, como pediste. Mas o teu pai não leu os
recados. E ele deu. Todos os dias ao fim da tarde iam dar um passeio com o avô
e o cão e passavam por casa da tia Idalina, que lhes dava uns biscoitos. Só
soube isto no fim das férias. Mas acho que os biscoitos são muito bons. Depois
peço-lhe a receita para te dar. Mas ela não usa cá açúcar amarelo. Não há disso
na aldeia.

• Comeram iogurtes e tivemos de comprar mais queijo porque eles
acabaram num instante o que tínhamos cá em casa. Já não me lembro se podiam
comer queijo ou não ou se era o leite de vaca que não podiam beber. Mas como é
difícil arranjar leite de cabra, comprámos do outro na mercearia e não nos
chateámos com isso. Não te chateies tu também.

• Não brincaram com o iPad. Enquanto estiveram cá na aldeia nem
lhe mexeram. Mas adormeciam a ver televisão. Dizias uma coisa qualquer sobre
ecrãs à noite, mas eu não percebi bem.

• Houve algumas birras. E numa delas o João fartou-se de chorar.
Ele disse que ia ligar-te, mas o teu pai disse-lhe para ir mas é jogar à bola e
estar calado e a coisa resultou.

• Não lhes comprei brinquedos de plástico na feira, como tu
disseste. E eles ficaram amuados comigo e não quiseram voltar à feira mais
nenhum dia, o que foi uma chatice. Que raio de ideia, filha. Isso não correu
muito bem.

• O champô que mandaste para eles, aquele das plantas
medicinais, cheirava mesmo mal. Tem paciência, mas lavei a cabeça dos teus
filhos com o meu champô. É bem mais barato do que o teu. Andas a gastar uma
fortuna numa coisa malcheirosa, filha.

• As toalhas de algodão armado ao pingarelho que tu mandaste são
tão fofinhas e estavam tão bem arrumadas que as deixei estar no sítio. Tive
medo de as estragar. Os teus filhos tomaram banho todos os dias e limparam-se
às toalhas que havia cá em casa. E não lhes caiu nenhum pedaço de pele. Acho
que fiz tudo bem.

• Querias que lhes desse três abraços por dia. Nuns dias dei
mais, noutros não dei nenhum. E houve um em que me apeteceu dar um tabefe à
Matilde, porque estava a fazer uma fita, mas depois acalmou.

• Não houve cá abraços a árvores. Esqueci-me. E houve um dia em
que o Pedro caiu da árvore do quintal e fez uns arranhões. Acho que não tinha
vontade nenhuma de dar abraços ao tronco.

• Aquela coisa de o João vestir as saias da Matilde é que me
pareceu esquisito. Ele nunca pediu para vestir a roupa da irmã. Eu achei isso
bem e fiquei contente.

• Todas as noites ouviram música, como pediste, mas não foi o CD
dos monges tibetanos, que isso irritava o teu pai. Ouviam a música dos
altifalantes da festa. Não querias o Despacito, mas ouviram isso umas dez vezes
por dia. E o Toy também. E o Tony Carreira e o Emanuel.

• Só deves ver este papel quando acabares de tirar as coisas dos
sacos dos miúdos. Deixei isto no fundo da mochila do Pedro de propósito. Assim,
antes de saberes das coisas que não fiz como tu querias, viste os teus filhos e
viste como estavam bem alimentados e cuidados.

PS: não precisas de colar isto na porta do frigorífico. Não
quero que gastes fita-cola. Se tiveres alguma dúvida, telefona-me. É isso que
as mães fazem: atendem o telefone às filhas para responder a dúvidas sobre os
netos.

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